A mudança instalou-se como um tiro no escuro. O mundo ficou
mais cinzento e mais frio. O amor e a confiança passaram a ser apenas meros
conceitos e as pessoas não passavam de corpos deambulantes de rostos
desconhecidos. Embora conseguissem levar uma vida supostamente normal e feliz,
faltava-lhes algo. Algo que outrora os fazia esboçar os sorrisos mais sinceros
e sentir o inexplicável, agora, pelo contrário, causava-lhes um vazio
descomunal, que nem eles próprios sabiam explicar.
O quarto, tal como o mundo, estava frio. Um ambiente
pesado rondava-o, embora ainda permanecesse um aroma adocicado que mais se
assemelhava ao perfume de Vénus. Um aroma doce, repleto de memórias,
sentimentos fervilhantes e saudade. De duas almas que se juntaram muito
antes dos corpos e que só estando juntas se completavam.
O que antes eram gotas quentes de suor e da
paixão que os unia, agora não passavam de gotas geladas como o orvalho ao
amanhecer. Gotas em que só restavam memórias, mágoa e saudade. O chão, aquecido
pelo calor que os seus corpos emanavam, estava agora gélido, como um bloco de
gelo. Os lençóis daquela cama abandonada, estavam agora estagnados e
solitários. Mortos. As paredes que outrora guardavam todas as memórias, dos
gritos aos amo-te sussurrados, dos risos aos choros, das promessas aos pactos,
estavam agora vazias. Ou pelo menos aparentavam. A dor, a mágoa e a nostalgia,
aliadas à saudade e ao orgulho, camuflaram tudo o que restava daquele amor
inacabado. Excepto aquele perfume tão alucinante como o que os unia. Aquilo que
simbolizava tudo o que se passara dentro e fora daquelas quatro paredes.
Daquele terceiro espaço, em que eles viviam, sem sequer saberem da sua
existência.
ff O
mundo estava frio e só, bem como o quarto. O mundo, o quarto e eles, que sem
saberem, sentiam tanta falta um do outro como um surdo sente a falta de ouvir o
bater das ondas nas rochas de uma praia deserta. Sentiam tanta falta um do
outro que nem sequer conseguiam explicá-lo. Os sentimentos e pensamentos transcendiam-nos
e talvez por isso, o afastamento foi algo inevitável. Sentiam falta de quando o
tempo parava quando estavam juntos. Sentiam falta do prazer sem nunca terem
sucumbido ao desejo. Sentiam falta dos beijos que não deram, dos amo-te que não
disseram e das verdades que nunca conseguiram expressar. Como alguém que sente
falta de ver o azul do céu, nascendo invisual. Sentiam saudades do que nunca
tiveram, do que nunca foram.
Eles podiam ter sido tudo, mas não arriscaram
o suficiente, mataram-se por jogarem pelo seguro. Tinham tanto para dizer um ao
outro e perderam as palavras num misto de encontro e abandono. Eles só queriam
que tudo voltasse. Sonhos constantes assombravam-nos noite após noite. Bebiam
os sorrisos e as magias um do outro. Beijavam os seus sonhos, acariciavam os
seus desejos e estavam felizes. Plenamente felizes. Sonhavam com o que podiam
ter sido e com o que quase eram, sem saberem. Até ao momento em que acordavam
com a dura realidade de que tudo aquilo não passava de meros sonhos, e que a
realidade era totalmente oposta. E ali permaneciam, sozinhos e
afundados num vazio descomunal, ainda mais profundo e gélido que o quarto e o
mundo.
Eles só queriam ser donos do seu mundo,
do seu destino. Queriam voltar a ser uma alma entre dois corpos, um destino
entre dois sonhos. Um acreditar entre duas vontades. Uma força entre duas
conquistas. Um sorriso entre duas alegrias. Um conforto entre duas companhias.
Um defeito para uma qualidade. Um total para duas metades. Um existir, entre
dois corpos ao vento. Um tudo no meio do nada. Queriam ser tudo isso de novo,
sem fazerem sequer ideia que já o tinham sido.
E eles ainda eram tudo isso, sem sequer o
saberem. Eram o lume de uma paixão inacabada. Ocultada. Nunca aproveitada ou
arriscada. Eram dois mundos à eterna descoberta das maravilhas da vida. O
mundo, o quarto e eles estavam vazios, frios e sós. Mas aquele perfume
adocicado permanecia. Uma chama de uma vela no meio de quatro paredes escuras.
Havia uma réstia daquele amor tão poderoso e fatal, cuja existência eles sempre
desconheceram. Só lhes restava a eles voltar a fazer tudo de novo. Mas será que
conseguiam? Conseguiam retomar algo que nunca começaram? Ressuscitar algo que
nunca chegou a nascer, ou que pelo menos, nunca teve uma vida reconhecida?
Lembravam-se perfeitamente de cada momento.
Cada segundo. Cada olhar trocado. Cada palavra proferida e cada abraço sentido.
Lembravam-se de cada milímetro do corpo um do outro, até mesmo daquilo que
nunca viram. Lembravam-se de todas as declarações de amor que nunca
fizeram e das discussões que nunca tiveram. Aperceberam-se que havia algo para
além da amizade que tinham. Um diamante que precisava de ser lapidado. Um mero
sorriso conseguia congelar o tempo, a voz de um era a música preferida do outro
e quando os seus olhares se cruzavam, nada mais importava. Quando os átomos que
os constituíam se afastaram como um pedaço de gelo quebrado, ambos
perderam algo que não sabiam sequer que existia. Perderam a chama que os
aquecia. Perderam a luz das estrelas, estrelas singelas e lindíssimas, que ao
olharem o céu jamais tinham visto (nem tornaram a ver). Perderam o porto de
abrigo. Aquilo que achavam que não era nada, mas que no fim se revelou tudo.
Quem lhes ativava os pulmões, lhes fugia pela boca. Quem fazia os seus poros
gritar, quando os corpos se fundiam num. Quem lhes bombeava sangue ao coração e
os fazia sentir o impensável, embora fosse encarado com uma maldita
normalidade. Quem fazia os defeitos parecerem virtudes e noites parecerem dias.
Entenderam que as coisas simples que os uniam eram as melhores coisas do mundo.
Lembravam-se da profundidade dos seus olhos cor de mel, presos nas suas peles.
Até já as pedras da calçada e as ondas do mar
choravam por eles, sentiam a sua falta. Das palavras que eles sussurravam um ao
outro sem sequer dizerem nada. Dos beijos que trocavam com o olhar e dos dias e
noites que passavam juntos em mente. O que eles mais queriam era que tudo
voltasse. Queriam fazer o outro perceber que o mundo era deles e que iriam para
onde o outro fosse, independentemente de tudo. Queriam estar juntos, no mar
gélido de defeitos e palavras saídas do coração. Queriam trocar mais beijos com
o olhar e depois com os lábios. Queriam passar mais dias e noites juntos com a
mente, e mais tarde com o corpo, naquela rotina que eles adoravam, mesmo
não se apercebendo da sua existência. Queriam comprovar que ainda se lembravam
na perfeição de cada contorno um do outro. Que a voz ainda era a mesma, bem
como o sorriso inocente e o olhar intenso. Queriam que se lhes lessem os seus
desejos. Os sonhos que sonhavam, após as madrugadas de insónias. Queriam tudo
isto, mas não o sabiam ao certo. Faltava-lhes algo, mas ainda não sabiam
decifrar o que era. Por isso, decidiram permanecer em silêncios que lhes
arrepiavam o coração. Permaneceram despidos de tudo o que os mantinha quentes.
Ficaram sem teto, sem chão. Até ao dia em que finalmente abriram os olhos e se
aperceberam da realidade que os unia. E que forte realidade.
Mas será que não era demasiado tarde?

uau, que lindo. é de que livro?
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